
O suicídio anunciado de Ziggy Stardust &
As Aranhas de Marte
Por Cristiano Bastos
No palco do teatro Hammersmith Odeon de Londres, no inverno
de 1973, David Bowie deu por encerrada a sua mais expressiva
fase, das inúmeras que a sua extensa carreira produziu.
Em uma noite de atmosfera obscura, de guitarras ameaçadoras,
de teatralidade e o frenesi do público adolescente,
Bowie cometeu o assassinato do seu alter-ego, o rockstar alienígina
Ziggy Stardust.
O
concerto-show Ziggy Satardust and the Spiders from Mars
– The Motion Pictures, que na época foi
exibido nos cinemas, mostra a última aparição
do alien criado por Bowie no star-system
terrestre. Algumas décadas depois, em 2003, numa jogada
de marketing comemorativa de trinta anos de lançamento
do filme, a gravadora Emi resolveu evocar o personagem do
mundo dos mortos. O esquálido Ziggy ressussitou restaurado
nas versões cd/lp (em edição limitada)
& dvd. Mick Ronson, na guitarra, piano e vocais, Woody
Woodmansey na bateria e Trevor Bolder, no baixo – a
banda Spiders from Mars – também voltou rediviva.
Na era jurássica à MTV, especialmente na década
de setenta, quando o mercado fonográfico ainda não
se fundamentava na megalomaníaca produção
de videoclipes de hoje, as grandes bandas se serviam da linguagem
cinematográfica para promover a sua imagem –
com um pendor mais artístico do que promocional, contudo.
Dessa época e estética, duas produções
também são emblemáticas: The Songs
Remains the Same (1976), do Led Zeppellin, que no Brasil
foi lançado com o título de Rock é Rock
Mesmo, e Born to Boogie (1972), de Marc Bolan &
T-Rex, dirigido pelo beatle Ringo Starr.
Filmado em 16 milímetros pelo diretor D. A. Pennebaker
– dos cultuados documentários Monterey Pop
Festival (1969) e Don’t Look Back, sobre
Bob Dylan (1967) –, Ziggy Stardust é um espetáculo
de grandiloqüência e estridência. Sobretudo
é o marco derradeiro dos excessos da era glam rock,
que Bowie anuncia: o fim das plumas, dos paetês, da
purpurina, do glamour, da champagne e das doses maciças
de cocaína.
Ziggy Stadust, a primera grande persona encarnada por Bowie
(que depois passou a ser Tin White Duke, o Duke Branco Magro),
veio do disco conceitual – e fundamental – The
Rise and Fall of Ziggy Stadust and the Spiders From Mars
– A Acensão e a Queda de Ziggy Stardust e
as Aranhas de Marte. O fabulário roqueiro diz
que Bowie formou o nome do personagem a partir da junção
dos diminutivos dos nomes Twiggy (a modelo de beleza esquelética
dos 60’s), Iggy Pop, Jimmi Hendrix (que assim como Ziggy
também era guitarrista e canhoto) e do cantor de western
& country norte-americano Alvin Stadust. Segunda
a lenda, nascia assim, Ziggy Stardust.
No filme, Bowie confirma que uma das grandes sacadas da sua
genialidade sempre foi ter se apropriado dos conceitos alheios.
Assim foi com Marc Bolan, depois com Iggy Pop e, por último,
com Lou Reed. Ele se aproximou tanto desses modelos artísticos,
que chegou a produzir os principais discos-solo dos dois últimos.
Hoje, Bowie está órfão de modelos. Talvez
isso explique a sua atual falta de criatividade.
Para
o aniversário de lançamento, a Emi contratou
o produtor Tony Visconti, que gravou os discos essenciais
de Bowie e também da banda rival T.Rex, para remixar
o som das velhas matrizes do espetáculo no Hammersmith.
Mas, tanto som quanto imagem, apesar da masterização,
preservam o clima gótico abusando dos fotogramas estourados
que dão a impressão de ser o resultado de uma
produção de terceira linha. Tudo proposital,
no entanto. A fotografia, aliada ao som e à estética
glitter, antecipou também o estilo das bandas
dark que proliferaram na década seguinte.
É bem possível que pupilos aplicados como Peter
Murphy e Daniel Ash, do Bauhaus, e Robert Smith, do The Cure,
estivessem na platéia naquela noite.
Nos momentos antes do espetáculo começar, a
turba formada pela juventude glam amontoa-se em frente
ao teatro Odeon, a maioria “querendo ser David Bowie”.
Todos esperam com ansiedade que o messias do rock desça
glamourosamente da sua limousine prateada com os seus sapatos
plataforma de doze polegadas. Ao chegar, a figura de Bowie
é intimidante: andrógino, um zumbi anoréxico,
cigarro pendendo da boca, cabelos vermelhos e o desleixo típico
de um astro junkie.
Dentro do Hammersmith Odeon, o frison com a expectativa da
chegada de David Bowie é insuportável. Camarilhas
de jovens insandecidos amontoam-se nas primeiras fileiras
do teatro. Luzes apagadas, tudo, enfim, conspira para a catarse
que se seguirá. E o que vem é a introdução
da Nona Sinfonia de Bethoveen e March from a
Clocwo, do compositor transsexual Wendy Carlos. Apressadamente,
a música erudita é soterrada pelos riffs envenenados
de Hang to Yourself, um psychobilly fervoroso
tocado com possessão pelo assustador Mick Ronson. Depois,
logo de cara, Bowie já descarta o hit mais emblemático
dessa fase, a homônima Ziggy Stardust, executada
com certa indolência pela banda.
O repertório do concerto também passeia pelos
discos anteriores de Bowie, e também por aqueles que
nem ainda tinham sido lançados na época, como
na música Watch the Man, do álbum Aladin
Sane. O disco, obra-prima glitter póstuma
de David Bowie, lançada no mesmo ano, na verdade, foi
o último suspiro do extraterrestre Ziggy Stardust.
Wild Eyed Boy from Freecould retoma os tempos early
hippies do disco Space Odditty, e aparece acoplada
ao hino All The Young Dudes (que ele compôs
para salvar do fracasso a banda Mott the Hopple) e à
Oh! You Pretty Things, de Hunky Dory, disco que antecede
a sua jornada pelo glam. Em Moonage Daydream, Bowie
anuncia que é um invasor do espaço, uma “puta
do rock’n’roll”, e cede espaço para
Mick Ronson exibir suas fabulosas habilidades com a guitarra.
A canção Changes, sobre o talento de
Bowie em mudar e assumir novas facetas, antecede Space
Oddity, que ganha outra ambiência, as guitarras
saturadas sendo substituídas por arranjos espaciais
e intimistas. A primeira parte do show é encerrada
com a melancolia depressiva de My Death, de autoria
do francês Jacques Brel. Acompanhado apenas do seu violão,
Bowie verte emocionantes lágrimas cenográficas.
Mas, embora fake, o recurso dramático funciona.
A
parte seguinte do concerto inicia com a introdução
de William Tell Overture, de Rossini, que é
emendada às microfonias retumbantes de Cracked
Actor. Em Time é protagonizada uma das
mais célebres cenas já registradas em toda a
história do rock, o momento em que Bowie simula um
felatio no seu guitarrista, fato que, na época,
aumentou o borburinho em torno da sua tão comentada
bissexualidade.
É com Width of a Circle, no entanto, do disco
The Man Who Sold the World, que a catarse se estabelece
por completo: o jogo amendontrador de luzes estroboscópicas
conspirando com a performance satânica de Mick Ronson,
imprimem nos rostos juvenis uma expressão mortificadora.
É como se todos estivessem sofrendo uma cruel dor inflingida
pelo seu algoz. Só que, ao invés de um açoite,
Ronson perpetua seu castigo com uma guitarra guibson em volume
desumano. Também é o momento de Bowie revelar
os recursos teatrais que possui, fazendo uma pantomima alusiva
à liberdade, mas sem a pieguice que essas performances
geralmente possuem.
Em seguida a um caos de guitarras trepidantes, as Aranhas
de Marte aliviam com um pouco de pop. Na versão bubblegum
de Let’s Spend the Night Together, Bowie presta
homenagem aos Rolling Stones. A feminista Suffragette
City, canção que é um dos petardos
mais emblemáticos dessa fase, é responsável
por antecipar, em praticamente uma era inteira, a estética
punk do final dos setenta e do início dos anos oitenta.
O final do show também é marcado por uma versão
de White Light/White Heat, do Velvet Underground,
que Bowie, com sua visão predigistadora, percebeu tratar-se
de uma das bandas mais influentes, criativas e inovadoras
– se não a mais – no rock feito do final
da década de setenta em diante.
E, como não podia deixar de ser, Ziggy Stardust
– Motion Picture termina com o pessimismo de Rock’n’roll
Suicide e a ode que a canção faz de uma
morte anunciada para milhares de fãs, que se tornaram
órfãos da maior figura dramática que
o panteão da música pop jamais voltou a produzir
novamente.
Cristiano Bastos é jornalista e autor do livro Gauleses
Irredutíveis – Causos e Atitudes do Rock Gaúcho
(editora Sagra Luzzato).
Ficha Técnica: Ziggy Satardust and the
Spiders from Mars – The Motion Pictures
Diretor: D.A. Pennebaker
Gênero: Musical
Nacionalidade: Reino Unido
Ano de Lançamento Original: 1973
Ano de Lançamento CD/LP/DVD: 2003
Duração: 91 minutos |
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